"Sou terrível", diz a dramaturga Gina Gionfriddo. "Uma vez brinquei com minha filha sobre deixar a porta aberta e deixar os assassinos entrarem para nos matar. Preciso me controlar."

Esse senso de humor afiado pode nem sempre agradar à sua família, mas é exatamente o que impulsiona **Becky Shaw**, de Gionfriddo, uma comédia ácida sobre um encontro às cegas desastroso que desanda em caos. Dezoito anos após sua estreia no Humana Festival of New American Plays, o espetáculo — finalista do Prêmio Pulitzer de Drama de 2009 — está agora na Broadway, no Helen Hayes Theatre do Second Stage. Esta remontagem de temporada limitada, dirigida por Trip Cullman, estreou com críticas entusiasmadas em 6 de abril.

A história centra-se na homônima Becky Shaw (Madeline Brewer), uma mulher de 35 anos desesperada, porém astuta, cuja vida desmoronou após uma série de relacionamentos fracassados. Seu plano? Casar-se para melhorar de situação. Enquanto tenta virar o jogo seduzindo o sarcástico gestor financeiro Max (Alden Ehrenreich) — uma armação equivocada de seu colega de trabalho Andrew (Patrick Ball) — todos ao seu redor, incluindo a esposa de Andrew, Suzanna (Lauren Patten), e a mãe de Suzanna, Susan (Linda Edmond), acabam pagando o preço.

Partes de **Becky Shaw** foram vagamente inspiradas por **Vanity Fair**, de William Makepeace Thackeray, que apresenta outra personagem chamada Becky — Becky Sharp — que é "super, super extrema e direta sobre tentar casar-se com uma classe superior", explica Gionfriddo. Ela ficou curiosa sobre o que significaria, para uma mulher do século XXI, perseguir objetivos igualmente mercenários.

A peça aborda questões difíceis e complexas através de sua exploração de hipergamia, ex-baristas com complexo de salvador, mães narcisistas, fraude postal, relacionamentos quase fraternos e roubo à mão armada: O que significa ter uma boa vida? Podemos realmente conhecer as pessoas que amamos? O que devemos a estranhos?

Gionfriddo, que frequentemente escreve para séries policiais de TV em Los Angeles — seu currículo inclui séries do universo **Law & Order**, **FBI: Most Wanted** e **House of Cards** — estava em casa no Upper West Side quando **Becky Shaw** entrou em produção. Isso permitiu que ela estivesse "muito, muito envolvida", participando da maior parte do processo de ensaios de três semanas e aprovando escolhas de elenco.

"O processo de elenco foi interessante porque os atores nesta peça realmente precisam estar bem em não serem amados", reflete Gionfriddo. "E certamente houve atores que leram o roteiro e não ficaram bem com isso." Havia também preocupação sobre como o público reagiria a algumas das piadas mais ousadas da peça. "Acho que todos estávamos um pouco preocupados que o público pudesse recuar diante da crueldade de parte do humor", diz ela, "mas isso não aconteceu, o que é um grande alívio." Pode ser que, com tudo o que acontece no mundo hoje, um pouco de grosseria não pareça grande coisa. Ou talvez **Becky Shaw** seja simplesmente muito engraçada.

Embora as peças mais conhecidas de Gionfriddo, como **After Ashley** e **Rapture, Blister, Burn**, tenham sido elogiadas como comédias sombrias, ela nem sempre se viu como humorista. "Não acho que eu jamais teria dito que era uma escritora cômica, que era engraçada, até a faculdade, que foi quando as coisas ficaram meio difíceis para mim." Muito de sua inspiração vem de dramaturgos gays que viveram a crise da AIDS. "Eu simplesmente adoro que o humor deles era tão sombrio... Acho que há um certo tipo de humorista com quem me identifico, que conta piadas para manter o desespero à distância."

A dor também é um tema recorrente em **Becky Shaw**. Em certo momento, Suzanna critica Max por ignorar o sofrimento alheio quando lhe convém. "A menos que você seja Gandhi ou Jesus, você tem uma esfera limitada de responsabilidade", argumenta Max. "Você tem um pedaço de terra..." A ideia de uma vida moral é cuidar do seu próprio pedaço de terra. Embora Gionfriddo possa facilmente nomear aqueles em sua própria vida — "obviamente primeiro meu filho, depois meu irmão, meus amigos próximos" — a questão de quanto ela deve ao mundo em geral ainda persiste. Quando **Becky Shaw** estreou em 2008, a Guerra do Iraque era a principal questão moral da época. Agora, não precisamos procurar muito por um dilema similar. "Há muito diálogo perguntando como podemos todos seguir com nossas vidas quando estamos ameaçando dizimar o Irã", diz ela. "Parte de mim, como Max, pensa: tenho um filho para criar. Preciso pagar minha hipoteca... E o que eu poderia fazer? Mas o outro lado é que nada muda se todos nos sentirmos assim."

O que devemos a estranhos? O que torna alguém "bom"? Gionfriddo não afirma ter as respostas. "Você pode ter sido muito vitimizada em sua vida; você pode ser uma completa vigarista", Susan diz a Becky na cena final. "Eu não sei. Minha sensação é que você está em algum lugar no meio."

Porque **Becky Shaw** vive nessa zona turva, muitas vezes desconfortável, da ambiguidade moral, um final arrumado pareceria falso. Em vez disso, os personagens entram em cena, fazem perguntas, apresentam visões conflitantes, fazem escolhas e discutem mais antes que as luzes se apaguem. Nesse ponto, a peça escrita pode ter terminado, mas parece provável que Becky, Max, Suzanna, Andrew e Susan ainda estão por aí, em algum lugar — tomando decisões questionáveis, se apaixonando, causando danos acidentalmente e simplesmente seguindo em frente.



Perguntas Frequentes
Claro. Aqui está uma lista de FAQs sobre a peça Becky Shaw e a abordagem de sua autora, Gina Gionfriddo, em responsabilizar os personagens.





Geral / Perguntas para Iniciantes



1. Sobre o que é Becky Shaw?

Becky Shaw é uma peça de comédia sombria sobre um casal recém-casado, Suzanna e Andrew, que marca um encontro às cegas entre a misteriosa colega de trabalho de Andrew, Becky Shaw, e o cínico e financeiramente astuto meio-irmão de Suzanna, Max. O encontro desastroso desencadeia uma série de eventos que expõe o egoísmo, as manipulações e as vulnerabilidades ocultas de todos os envolvidos.



2. Quem é Gina Gionfriddo?

Gina Gionfriddo é uma dramaturga e roteirista de televisão americana. Ela é conhecida por suas peças de diálogo afiado, como Becky Shaw e Rapture, Blister, Burn, que frequentemente dissecam relacionamentos modernos, ética e classe social com uma honestidade implacável.



3. O que significa que Gionfriddo responsabiliza a todos na peça?

Significa que ela não deixa nenhum personagem escapar impune de seu mau comportamento. Todo personagem principal age de forma egoísta, manipuladora ou moralmente questionável, e a peça força tanto os personagens quanto o público a confrontar as consequências dessas ações sem fornecer um herói ou vilão claros.



4. Há um mocinho ou um bandido em Becky Shaw?

Na verdade, não. Essa é a questão. Cada personagem tem traços simpáticos e falhas claras. Max pode ser cruel, mas brutalmente honesto. Suzanna parece frágil, mas é manipuladora. Andrew parece nobre, mas é presunçoso. Becky parece vitimizada, mas é profundamente calculista. A peça pede que você julgue todos eles.



Avançado / Perguntas Temáticas



5. Como a estrutura da peça responsabiliza os personagens?

A peça é estruturada como uma série de debates éticos ou sessões de terapia. Os personagens são constantemente forçados a explicar e defender suas escolhas uns para os outros em diálogos diretos e confrontacionais. Não há lugar para seu mau comportamento se esconder; ele está sempre sendo dissecado por outro personagem em cena.



6. Quais são as principais falhas pelas quais cada personagem é responsabilizado?

*Max:* Sua covardia emocional, sua crueldade disfarçada de honestidade e sua visão transacional das relações humanas.